Desde o nascimento à morte e desde os confins da vida que a nossa existência é marcada pela tentativa de decifrar enigmas. Encontrar chaves para abrir portas fechadas, abrir novos caminhos, em si próprio e no mundo, em busca de respostas.
Esta edição “enigmática” arranca em Oeiras, no cenário único dos Claustros do Convento da Cartuxa - Caxias transformado numa sala de fruição de ópera ao ar livre...
Com excelentes condições acústicas, metamorfoseando-se na China antiga para acolher Turandot (1926), a última ópera inacabada do mestre da emoção Giacomo Puccini, em modo de celebração do seu centenário, em co-produção com a Orquestra Filarmónica Portuguesa.
Uma das grandes óperas de repertório de sempre, em torno da resolução do enigma como factor de sobrevivência, com um grande elenco internacional protagonizado pela aclamada soprano russa Olesya Golavenva, que tem prestado interpretações marcantes neste papel e o tenor mexicano Rodrigo Garull, sob a direcção musical do maestro Osvaldo Ferreira, trazendo a Portugal a produção original do Hessisches Staastheater de Wiesbaden, estreada em 2024, conta a encenação de Daniela Kerck, que volta a Lisboa depois do êxito das estreias nacionais de Vanessa de Samuel Barber e de Julie de Philippe Boesmans, na edição passada do festival.
Ainda na Cartuxa, As Bodas de Fígaro (1786) de Mozart com o humor deliciosamente mordaz do libreto de Lorenzo da Ponte, baseado na obra de Beaumarchais, gira em torno das complexas relações e desejos humanos, replectas de traições e enganos, tecendo uma forte crítica social ao abuso das classes mais abastadas, sempre actual. Este grande clássico com a música única de Mozart, conta com um elenco de grande talento nacional, sob a direcção do maestro Pedro Carneiro, com a encenação de Mónica Garnel, com a Orquestra de Câmara Portuguesa, que retornam a Mozart depois da sua inesquecível Flauta Mágica.
De volta à capital lisboeta, no âmbito do ciclo Ópera Satélite, a performance Anátema, celebra Camilo Castelo Branco, evocando temas centrais da sua obra como a expiação e o sacrifício, reunindo a soprano Catarina Molder e a bailarina e coreógrafa Tânia Carvalho, no Teatro Romano de Lisboa. Na sala Estúdio Valentim de Barros, o festival volta a desafiar o artista polifacetado Gustavo Sumpta, desta vez para explorar o tema desta edição do Operafest com a performance Enigma Névoa Nada. Apresenta ainda no Âmbito Cultural do El Corte Inglés as conferências Turandot: a femme fatale de Puccini? e Amor & Arsénico: a química nos bastidores da ópera por João Paulo André, professor na Universidade do Minho e divulgador científico que tem explorado intersecções entre ciência e artes e, em particular, da química com a ópera e Mozart e os delitos conjugais pelo grande radialista e divulgador de ópera, Jorge Rodrigues.
No ciclo cine-ópera em parceria com a Cinemateca Portuguesa, em torno dos contágios múltiplos entre cinema e ópera, propõe-se a versão cinematográfica com intérpretes extratosféricos como Plácido Domingo, Katia Ricciarelli e Ghena Dimitrova, de Franco Zeffirelli, da ópera Turandot (1983), o paradigmático filme Aria (1987) em que dez grandes realizadores constroem desconcertantes narrativas, a partir de árias muito conhecidas do grande repertório operático. E ainda a obra-prima de Fellini, evocando a figura da diva e toda a excentricidade alla italiana da própria ópera, e E la nave va (1983), e terminando com o marcante filme de Miloš Forman, Amadeus (1984), que nos devolve um Mozart apaixonante e trágico, partilhando com o grande público a atribulada e curta vida do génio austríaco.
O Laboratório Ópera XXI - plataforma para a ópera de hoje, que aposta na formação, profissionalização e dinamização da ópera contemporânea, com várias iniciativas que decorrem ao longo do ano, dirigidas a profissionais e estudantes do sector, cruzando também com o Operafest, propõe um conjunto de actividades dirigidas a cantores: Masterclasses de canto para aprofundar a técnica vocal e interpretação e Construindo personagens cantantes, um workshop de construção cénica destinado a cantores, pela actriz e encenadora Mónica Garnel, com a apresentação final dos exercícios, excertos trabalhados.
Coroando esta edição, no Teatro Camões, o concurso de ópera contemporânea, Maratona Ópera XXI presenteia o Operafest com duas óperas, em estreia absoluta, de dois jovens compositores selecionados em 2025, a partir de dois libretos encomendados para o efeito ao dramaturgo Miguel Castro Caldas, que assim se estreia neste género, evocando temas da nossa realidade presente e futura, com o seu paradigmático toque de humor. Vida secreta de coisa de Francisco Lima da Silva em torno de questões levantadas pela Inteligência Artificial e plataformas digitais de serviços e Último andamento evocando os efeitos da gentrificação e crescente desumanização das cidades, despojadas da sua população. Ambos compositores obtiveram ainda bolsas de composição e à melhor ópera será atribuído o Prémio Maratona Ópera XXI, a encenação marca ainda a estreia da actriz e encenadora Rita Calçada Bastos na encenação de ópera, com a direcção musical de Diogo Costa
Benvindos ao Operafest e ao mundo fascinante da ópera!
Catarina Molder