Turandot: a femme fatale de Puccini? Conferência “warm up” por João Paulo André
A princesa de gelo que não se deixa sacrificar pelo jugo masculino.
No palco pucciniano – e, em larga medida, também na vida do compositor – a figura feminina ocupa uma centralidade raramente igualada na história da ópera. Poucas óperas edificam o drama com tamanha intensidade em torno das mulheres, das suas paixões e vulnerabilidades, e da forma como, nelas, o amor se confunde com perda e sacrifício.
Não fosse Turandot, a última ópera de Giacomo Puccini, com a implacável princesa que condena à morte os pretendentes incapazes de decifrar os enigmas, dir-se-ia que o panteão das heroínas puccinianas é quase inteiramente povoado por mulheres dispostas a morrer por amor – Mimì, Tosca, Cio-Cio-San: figuras de entrega absoluta, conduzidas a destinos trágicos. Turandot irrompe, porém, como dissonância nesse universo: não é vítima, mas juíza; não se sacrifica, faz sacrificar; onde as outras se consomem, ela endurece. Será, então, a femme fatale de Puccini – ou antes a entre fascínio e destruição?
João Paulo André é doutorado em Química pela Universidade de Basileia e Professor Auxiliar no Departamento de Química da Universidade do Minho. Nos últimos anos tem-se destacado na divulgação científica, explorando as interseções entre ciência, arte e cultura. É autor de três livros publicados pela Gradiva: Poções e Paixões – Química e Ópera (2018), Irmãs de Prometeu – A Química no Feminino (2022) e, em coautoria com Carlos Fiolhais, A Harmonia das Esferas – Música, Ciência e os Mistérios do Universo (2025). O primeiro foi adaptado para braille e formato áudio pela Biblioteca Nacional de Portugal e inspirou um espetáculo de ópera apresentado em várias cidades; o segundo foi publicado em língua inglesa pela Springer. É colaborador regular do jornal Nascer do SOL.