Turandot: a femme fatale de Puccini? Conferência “warm up” por António Chagas Rosa
A princesa de gelo que não se deixa sacrificar pelo jugo masculino.
No palco pucciniano – e, em larga medida, também na vida do compositor – a figura feminina ocupa uma centralidade raramente igualada na história da ópera. Poucas óperas edificam o drama com tamanha intensidade em torno das mulheres, das suas paixões e vulnerabilidades, e da forma como, nelas, o amor se confunde com perda e sacrifício.
Não fosse Turandot, a última ópera de Giacomo Puccini, com a implacável princesa que condena à morte os pretendentes incapazes de decifrar os enigmas, dir-se-ia que o panteão das heroínas puccinianas é quase inteiramente povoado por mulheres dispostas a morrer por amor – Mimì, Tosca, Cio-Cio-San: figuras de entrega absoluta, conduzidas a destinos trágicos. Turandot irrompe, porém, como dissonância nesse universo: não é vítima, mas juíza; não se sacrifica, faz sacrificar; onde as outras se consomem, ela endurece. Será, então, a femme fatale de Puccini – ou antes a expressão mais extrema de um imaginário que inscreve o feminino na fronteira entre fascínio e destruição?
António Chagas Rosa é compositor e Professor Auxiliar no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Ao longo da sua carreira, tem dedicado uma parte significativa da sua criação artística à ópera. Em 1994, no âmbito de Lisboa Capital Europeia da Cultura e de uma encomenda do ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian, compôs a sua primeira ópera, Cânticos para a Remissão da Fome. Por encomenda das cidades do Porto e de Roterdão, Capitais Europeias da Cultura em 2001, compôs Melodias Estranhas. Em 2020 regressou ao género com O Homem dos Sonhos, encomenda da Ópera do Castelo, estreada no Teatro São Luiz e posteriormente apresentada em vários locais, incluindo o Operafest Lisboa. Encontra-se, actualmente, a concluir uma nova ópera, encomendada também pela Ópera do Castelo, que terá estreia absoluta em 2027.
A sua produção inclui ainda obras para orquestra, música de câmara e repertório vocal, tendo recebido encomendas de instituições como: Fundação Calouste Gulbenkian, Teatro Nacional de São Carlos, Festival Internacional de Música de Macau, Klangforum Wien e Nederlands Kamerkoor.
Formado em História pela Universidade Nova de Lisboa, concluiu as pós-graduações em Composição e Música de Câmara nos Países Baixos, onde foi maestro repetidor no Muziektheater de Amesterdão e professor da classe de ópera do Conservatório Sweelinck. É doutorado em Música pela Universidade de Aveiro, onde leciona desde 1996 e integra a unidade de investigação INET-md.